SENHOR DOS LIVROS – Briquet de Lemos

Publicado: janeiro 30, 2009 em Biblioteconomia
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Antonio Agenor Briquet de Lemos deve a Brasília a revolução profissional vivida. No currículo, o comando de uma editora e uma livraria de arte. Briquet chegou cheio de desafios. Venceu todos. De acadêmico, passou a livreiro e, de quebra, ajudou a construir novo cenário musical. Carolina Nogueira da equipe do Correio Brasília abriu a ele as portas do mundo e de uma nova profissão. E ele deixou de presente para a cidade a espinha dorsal de uma das mais importantes expressões musicais brasilienses. A relação de Antônio Agenor Briquet de Lemos – bibliotecário, editor e livreiro – com o lugar que escolheu para morar é assim. Uma troca justíssima. Briquet, como é conhecido em Brasília, nasceu em Teresina, no Piauí, e logo se mudou para o Rio de Janeiro, onde viveu até os 30 anos. No auge da repressão militar de 1968, ele tinha numa mão a vida carioca estruturada – casado, com três filhos pequenos e um bom emprego – e, na outra, um convite para trabalhar na Universidade de Brasília (UnB). ‘‘Eu me dividia entre o sonho de ingressar na vida acadêmica e o medo diante de toda a campanha contra Brasília que existia no Rio de Janeiro daquela época’’, lembra. Quando escolheu investir na nova capital, não tinha idéia do que o esperava. Pensou, repensou. Resolveu ignorar os conselhos dos amigos cariocas, que espalhavam o boato de que a nova capital não duraria nem até o início da próxima década. Preferiu esquecer a fama de repressora que a UnB tinha, reflexo do episódio de 1965 – quando a reitoria expulsou 25 professores em retaliação a uma greve, o que culminou no pedido coletivo de demissão de outros 200 docentes. Sentindo-se meio desbravador e meio traidor da cidade maravilhosa e dos professores que tinham voltado para o Rio de janeiro, ele fez as malas e decidiu mudar de vida. Só não sabia que seria tanta mudança. ‘‘Tudo que fiz só foi possível porque optei por Brasília. Foi a experiência na universidade que alavancou tudo que veio depois: os projetos, a edição de livros e até o envolvimento musical dos meninos.’’ Os ‘‘meninos’’ de quem ele fala são os filhos Antônio Felipe Lemos, o Fê Lemos, e Flávio Lemos, respectivamente baterista e baixista do Capital Inicial há quase vinte anos. Com a autoridade de quem conviveu com a turma e incentivou cada passo da banda, Briquet conta que o caso de amor dos dois com o rock começou na temporada que a família passou em Londres, quando Fê tinha 14 anos e Flávio, 13. ‘‘Cheguei em Londres para fazer um mestrado, em novembro de 1976, no auge do movimento punk, na ocasião do primeiro grande caso de amor do Sex Pistols com a imprensa’’, lembra. Daí para a ‘‘Independência’’, quando o Capital Inicial estourou em todo o país, bastaram seis anos. Mas a UnB deixou muitas outras marcas na vida do livreiro. Briquet conta, quase emocionado, como mergulhou de cabeça na vida acadêmica recém-nascida de Brasília. ‘‘Era uma profusão de projetos, de possibilidades, de dedicação à causa. O governo investia, tinha dinheiro. É claro que não era perfeito, vivíamos uma ditadura, com pressões políticas. Mas talvez até isso tenha contribuído para o momento, unindo a comunidade acadêmica em torno de um inimigo comum’’, explica. A nostalgia toma conta quando ele lembra do congresso de biblioteconomia que ajudou a realizar em 1975. Na base do voluntariado, os professores organizaram um seminário nacional para 1.500 pessoas. ‘‘A gente tinha gana de mostrar para os outros professores que Brasília era forte, era criativa, era capaz. Trabalhávamos noite e dia para que todos saíssem do encontro elogiando a capacidade da UnB. Hoje em dia, a universidade não faz nem um evento para cinco pessoas sem contratar uma consultoria, uma empresa de eventos. Ninguém se mexe. Cada um só pensa no seu’’, lamenta. Aposentado da universidade, o bibliotecário continua a viver no meio dos livros. Desde 1993, edita livros técnicos sobre biblioteconomia na Briquet de Lemos, a única editora especializada no assunto no país. Em 1994, abriu a primeira livraria especializada em livros de arte da cidade, que até hoje habita o oitavo andar do Edifício Embassy Tower – bem longe dos corredores dos shoppings e do público comum. O cantinho escondido explica a relação de Briquet com a cidade que escolheu. ‘‘Minha Brasília é isso: tranqüila, quietinha, meio ilha da fantasia. É meu quintal cheio de bichos, é ter vivido muitos anos andando de bicicleta entre a Colina (no campus da UnB) e a minha sala de aula na universidade.’’ Essa é a vida do anônimo que, discretamente, deixou a cidade mudar sua história e colocou sua marca na vida da cidade. Correio Braziliense sábado, 20 de abril de 2002

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